Navegar é preciso

22/04/2013 at 13:31 Deixe um comentário

A nossa dor e a dor dos outros

Luiz Manfredini *

Insuportável assistir, na semana que passou (e talvez na semana que se inicia), o choroso noticiário de TV a respeito das bombas que explodiram na maratona de Boston no último dia 15, com mortos e feridos. O episódio foi, de fato, violento, lastimável, condenável sob todos os aspectos. Como afirmou o governo cubano, em sua reprovação ao episódio, deve ser rechaçado todo ato de terrorismo “em qualquer lugar, sob qualquer circunstância e quaisquer que sejam as motivações alegadas”.

A despeito da justa indignação que as explosões causaram, a repercussão na grande mídia brasileira foi exagerada. A exaustiva ruminação do fato, até em seus detalhes mais inexpressivos, deu a impressão de que a dor dos norte-americanos vale mais do que a dor do resto do mundo, chancelada que foi como a dor suprema da humanidade nos dias que correm.
Não é. É larga e intensa, é legítima, merece irrestrita solidariedade, mas não é a dor maior do mundo.

Valeria mais que a dos palestinos massacrados cotidianamente pelo genocídio sionista apoiado pelos EUA? Mais que a dos sírios, esmagados por uma guerra insuflada por Israel e pelo imperialismo norte-americano? Mais que a dor dos tantos afegãos e iraquianos mortos pelas guerras que lhe foram travadas pelo império? Fiquemos por aqui. Há muito mais dor no mundo, boa parte disseminada pelo expansionismo belicista norte-americano. Valeriam menos que o justo sofrimento dos bostonianos? Não. Definitivamente não.

Há outro aspecto que o episódio revela: quem promoveu a explosão ocorrida à margem dos sofisticados serviços de segurança dos EUA? Ainda não se respondeu a esta questão, ao menos até o momento em que redijo esta nota. Bem pode ser um daqueles paroxismos de violência típicos da sociedade norte-americana. Ao invés de armar-se até os dentes, entrar numa escola e matar quem está pela frente, talvez o autor tenha preferido bombas. Ou então fruto do fanatismo político.

Dos 53 atentados terroristas frustrados nos EUA após a explosão das Torres Gêmeas, 43 foram atribuídos aos chamados “hate groups”, ou seja, esses enlouquecidos grupos ligados à truculenta e crescente extrema-direita norte-americana, como informa o jornalista Clóvis Rossi, em artigo sob o título “Deus salve a América. Se der”, publicado na Folha de S. Paulo dias atrás. Segundo Rossi, esses grupos cresceram em 813% só nos primeiros quatro anos do governo Obama.

Mas há os suspeitos de sempre: os árabes e seus descendentes, particularmente os muçulmanos, entronizados no maniqueísta e epidérmico imaginário norte-americano como os autores de todos os males, inimigos públicos preferenciais. Não é por menos que os muçulmanos dos EUA temam se tornar alvo de represálias após o episódio de Boston, ainda que, através de várias de suas associações, tenham condenado explicitamente as explosões. O porta-voz do Conselho das Relações Americano-Islâmicas, Ibrahim Hooper, disse que recebeu “chamadas de ódio habituais”, segundo noticiou o Vermelho.

Embora a autoria do atentado ainda não esteja descoberta, o New York Post já menciona a existência de um suspeito de origem saudita sob guarda em um hospital da cidade. Por outro lado, dois passageiros e suas malas foram retirados de um voo da United Airlines que decolaria do aeroporto Logan, em Boston, na última terça-feira, 16. Suas identidades não foram reveladas, mas sabe-se que eles falam árabe.

O lamentável episódio de Boston confirma um certo autocentrismo do conjunto da sociedade norte-americana, cada vez mais alheia ao que chama de “resto do mundo” e, a meu ver, alienada e enfermiça. Nunca me esqueço que seus protestos contra as guerras de hábito perpetradas pelos EUA mundo afora afloram apenas quando começam a chegar os corpos dos seus filhos mortos em combate. É aí que ela se sensibiliza. Quanto aos mortos do outro lado, do lado que em diversos países resistiu à invasão ianque, bem, quanto a esses que morrem aos milhares, pouco se lhes dá. A dor do “resto do mundo” não importa tanto, vale menos, certamente.

Luiz Manfredini é jornalista e escritor em Curitiba, representa no Paraná a Fundação Maurício Grabois e é autor de “As moças de Minas”, “Memória de Neblina”, “Sonhos, utopias e armas” e “Vidas, veredas: paixão”.

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