Navegar é preciso

08/04/2013 at 09:20 Deixe um comentário

O fantasma do poder evangélico

*Luiz Manfredini

Observadores do atual cenário político brasileiro vêm percebendo, no imbróglio resultante da eleição do Deputado Marco Feliciano (PSC-SP) para a Presidência da Comissão de Direitos Humanos e de Minorias da Câmara Federal,algo mais do que as posições racistas e homofóbicas em si mesmas do parlamentar, que é pastor evangélico. Trata-se, como escreveu o jornalista Jânio de Freitas em sua coluna na “Folha de S. Paulo”.do “primeiro embate relevante em que os evangélicos se põem como um novo bloco orgânico, ideologicamente bem definido e poderoso”.

Segundo o pastor Ricardo Gondim, líder da Igreja Betesda, mestre em teologia pela Universidade Metodista e que se considera um dissidente do fundamentalismo evangélico, o movimento neopentecostal – o que mais cresce no Brasil – “se expande com um projeto de poder e imposição de valores” com o objetivo de ser maioria e “cada vez mais definir o rumo das eleições e, quem sabe, escolher o presidente da República”. Para Gondim, “seria a talebanização do Brasil”.

Jânio de Freitas vai no mesmo sentido quando afirma, em seu artigo, que “nenhum segmento político está em mais condições de crescer, nas eleições do ano próximo para o Congresso, do que os evangélicos”. É o caminho para uma república teocrática, avessa à tolerância religiosa dos brasileiros, e inusitada ameaça à laicidade do Estado.

Atual porta-voz desse fundamentalismo, o deputado Marco Feliciano torna-se cada vez mais agressivo, a despeito das manifestações que não cessam contra sua permanência à frente da Comissão de Direito Humanos. É claro que boa parte dessa postura alimenta objetivos eleitorais. O próprio partido a que pertence, o Partido Social-Cristão (PSC) prevê que, ao radicalizar o discurso, Feliciano poderá triplicar os 211 mil votos que obteve em 2010.

O vertiginoso crescimento das igrejas pentecostais e neopentecostais no Brasil, que Ricardo Gondim considera “filho direto do fundamentalismo norte-americano”,é fenômeno óbvio e certamente objeto da atenção de estudiosos. Beneficiadas por uma legislação que os cumula com benesses várias, particularmente a isenção de impostos, vicejamno vácuo deixado pela igreja católica, de há muito órfã da Teologia da Libertação (que reunia os pobres, lhes conferia consciência e os instava a lutar por direitos coletivos) e em meio a uma sociedade crescentemente individualista que se apraz com um tipo de igreja de resultados, voltada à solução de situações concretas, migrando de uma para outra conforme sua conveniência. E nesse universo, utilizando à larga as modernidades midiáticas, destilam sua concepção fundamentalista, atrasada, preconceituosa, sepultando qualquer traço de racionalidade.

Não é intenção deste exíguo artigo examinar as origens, a natureza e o papel dessas igrejas e da religiosidade com a qual operam no campo da construção ideológica no mundo contemporâneo, mas apenas refletir, ainda que  com muita brevidade, sobretudo a respeito das articulações desses movimentos em direção ao poder político. Dos púlpitos ao Congresso Nacional, conformando bancadas cada vez mais numerosas e influentes, essas correntes evangélicas alimentam o bloco da direita e com ele marcham no sentido de bloquear qualquer iniciativa minimamente progressista, parta de onde partir.

Há mesmo, repetindo o pastor dissidente Ricardo Gondim, “um projeto de poder e imposição de valores”. E com força crescente. Cada vez mais agressivo, o deputado Marco Feliciano já fala em mobilizar milhões. Em seus cálculos, 50 milhões. “Se é para gritar, tem um povo que sabe o que é grito. […] Nós (evangélicos) sabemos qual é o poder da nossa fé”, brada, dizendo-se perseguido pelas manifestações contra sua manutenção na Presidência da Comissão de Direitos Humanos. Ele força a visão de que está em curso uma guerra contra os evangélicos, uma guerra – é claro – movida pelo Satanás, pretendendo com isso levantar milhões em defesa da fé supostamente ameaçada. A própria comissão foi acusada de vínculos com o demônio, ao menos até Marco Feliciano, “um pastor cheio de espírito santo”, como ele próprio se definiu, aportar na Presidência.  Pura agitação política, o disparate provocou protesto até da deputada Antônia Lúcia, do PSC acreano, também evangélica e vice-presidente da comissão.”Em respeito à minha própria pessoa, ao meu trabalho como parlamentar, eu não aceito uma declaração dessas. Eu acho que nós temos que separar igreja de Parlamento”, disse a parlamentar.

Mas o fundamentalismo, irracional que é, não se detém. Feliciano, que considera que o Brasil vive “uma ditadura gay”. Ao defender-se numa ação protocolada no Superior Tribunal Federal, que o acusa de discriminação sexual e racial, Feliciano negou der homofóbico e racista, mas confirmou, com base na bíblia, sua visão de que sobre os povos africanos recai uma maldição divina proferida pelo personagem Noé. Interpretações como essas já serviram de base para manifestações racistas no Brasil e nos Estados Unidos no século XIX.

E assim vão as coisas, com notícias diárias sobre esse embate. Os protestos são generalizados, tanto nas redes sociais, quanto no próprio Congresso. Dias piores virão. No Facebook, uma mensagem de apoio a Feliciano mereceu 1.716 compartilhamentos, sendo curtidas por mais de 500.As forças progressistas devem se preparar uma dura luta pela hegemonia, ao menos pela neutralização dessa avalanche de conservadorismo.

Luiz Manfredini é jornalista e escritor em Curitiba, representa no Paraná a Fundação Maurício Grabois e é autor de “As moças de Minas”, “Memória de Neblina”, “Sonhos, utopias e armas” e “Vidas, veredas: paixão”.

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