Em Curitiba quinze vilas em busca de uma história

09/09/2012 at 10:27 Deixe um comentário

Operação policial que “congelou” zona violenta de Curitiba completa meio ano. Laboratório de combate ao crime caminha bem, mas raízes deixadas pelo tráfico ainda medem forças com o poder público e a ação popular

publicado: gazeta do povo -09/09/2012

Henry Milleo/ Gazeta do Povo / Ao sair da escola, crianças e adolescentes “pulam trem” na Vila Audi, na última quarta-feira. Ritual se repete duas vezes por dia

A semana que passou foi agitada no “Uberaba de Baixo”, como é chamada a região de Curitiba que fica espremida entre a BR 277, a linha do trem, as cavas do Rio Iguaçu, pontes que balançam e uma valeta de dar medo. As 4,4 mil crianças da região – vinculadas a 11 espaços de atendimento, entre centros de educação infantil, escolas e ONGs – faziam reproduções da Bandeira Nacional em papel crepom, tarefa para as comemorações da Semana da Pátria. Numa das instituições, a Ossa (Obra Social Santo Aníbal), 150 pequenos moradores saíram às ruas poeirentas da Vila União Ferroviária com cartazes, numa declaração de amor ao Brasil.

Quando crescerem, é provável, esses meninos e meninas vão descobrir que naquelas bandas o 7 de Setembro é importante, sim, mas que há outras três datas que não podem esquecer: a marcha do movimento sem teto que promoveu a ocupação da região, em 1998; a chacina de outubro de 2009, que vitimou oito pessoas – incluindo um bebê de 5 meses; e uma outra ocupação, em 1.º de março de 2012, dessa vez promovida não pelos órfãos do sistema habitacional, mas pela Polícia Militar, que declarou a parte mais pobre do velho Uberaba a primeira Unidade Paraná Seguro, a UPS, versão local da Unidade de Polícia Pacificadora, a UPP carioca.

A escolha da região para iniciar a “era UPS” em Curitiba não causou espanto. A área formada por 15 vilas, mas conhecida sobretudo por duas – a Audi e a União – tem lugar cativo nos rankings locais de violência. Apenas em 2011, o Uberaba – o de Cima e o de Baixo – foi cenário de 53 homicídios, quase 10% do grosso da criminalidade na capital paranaense. Desses 53 mortos, pouco mais da metade vivia em vilas como Icaraí, Ferroviária e Marumbi, para citar três áreas do bolsão. É como se a cada mês dois mortos fossem encontrados numa área minúscula, com dois quilômetros em linha reta, à mercê de serem en­contrados pelas crianças a caminho da escola. O que de fato acontece. “Os meninos chegavam dizendo ter visto um corpo”, lembra Eliete Werner, coordenadora da ONG canadense Voice For Change, que atua há sete anos na comunidade.

O modelo de “violência con­centrada” do bolsão serviu como uma luva para um laboratório de segurança pública. Se funcionasse ali, a experiência poderia ser replicada. Em seis meses de ocupação policial, contudo, o “caso Audi-União” se mostrou muito mais resistente do que, suspeita-se a boca pequena, parecia a princípio. Não faltou investimento público no local, convertido num campo de obras, mas a violência, qual febre, às vezes sobe.

Nesses 180 dias de UPS, 45 policiais circularam dia e noite, aos olhos dos quase 20 mil moradores. Flagrar a ronda passando no portão de casa virou rotina. O poder municipal – que acentuou sua presença na região a partir de 2007, com verbas federais do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC – apertou ainda mais o passo, inaugurando unidades de educação infantil e iniciando a construção de um espetacular Centro da Juventude. Ao todo, esses investimentos da prefeitura são na casa dos R$ 51 milhões.

Ainda assim, dos 28 homicídios registrados no Uberaba de janeiro a agosto deste ano, 17 ocorreram na área da UPS, segundo dados da Delegacia de Homicídios. O efeito desses números renitentes sobre o moral da UPS e dos moradores é flagrante. “Em julho-agosto, 15 alunos deixaram a escola. É comum. Quando há picos de violência, os pais ficam assustados e mudam de bairro”, conta a educadora Lisiane Gastaldim, 34 anos, da Escola Municipal Maria Marli Piovezan, único diretor de escola dentre os procurados que aceitou falar com a reportagem da Gazeta do Povo.

Diante das muitas recusas em tratar da pacificação, pode-se deduzir que o Uberaba de Baixo permanece um território de medo, à revelia da autoridade policial. Mas é uma meia verdade. Em paralelo, há gente como a dona do bazar da Rua Helena Carcereri Pierkaski, a “Avenida Brasil” do bolsão, que fecha as portas do comércio assim que avista a imprensa, há quem declare entusiasmo com o projeto e use os dedos para contar os benefícios alcançados pela comunidade de março para cá. “Dá para ir à igreja e receber amigos, sem preocupação. A viatura sempre passa”, festeja José Aparecido Dudu Silva, do Conselho de Segurança do Uberaba.

Uma pesquisa trimestral da Regional Cajuru – à qual pertence o Uberaba – junto a 300 moradores do bolsão apontou que 74% identificam o que seja uma UPS, o que é uma proeza numa região com índices educacionais baixíssimos: 65% da população têm fundamental incompleto. E 97% aprovam a iniciativa. É a opinião de quem sai para trabalhar e enfrenta a geografia ingrata das vilas – nas quais só se pode entrar por duas vias, isso se os comboios não estiverem estacionados nos trilhos, fechando o caminho. O carro da polícia, nesse cenário, é um refresco.

Resta saber se as rondas darão conta dos labirintos que fizeram do Uberaba de Baixo um campo de guerra. Nascido de forma organizada, nos anos 1990, o espaço se degradou, redundando na tragédia de 2009, o “dia da chacina”. Há seis meses, um espetáculo de helicópteros e de cavalaria deu a entender que esse capítulo tinha acabado. Mas algo resiste em ceder. Resta saber o que pode ser mais forte do que uma UPS com 45 policiais a postos, podendo chegar a 100 em horas de reforço. Tudo indica que o Audi-União não é tão pequeno quanto parece.

 

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