Ho Chi Minh, inspiração presente

02/09/2011 at 16:42 Deixe um comentário

*Luiz Manfredini

Quando as tropas da Frente de Libertação Nacional do Vietnã irromperam em Saigon, em 30 de abril de 1975, expulsando os invasores norte-americanos do então Vietnã do Sul, Ho Chi Minh já havia morrido. As complicações da tuberculose adquirida ainda aos 24 anos e o desgaste provocado por décadas de lutas ásperas e contínuas haviam derrubado o velho revolucionário, líder histórico dos bravos vietnamitas, aos 79 anos, em dois de setembro de 1969.

A morte impediu Ho Chi Minh de cumprir o que prometera em seu brevíssimo testamento político, redigido meses antes: após a vitória final, “percorrer todo o país, de sul a norte, para felicitar nossos compatriotas, os nossos quadros e os nossos combatentes heróicos e visitar os nossos velhos, os nossos jovens e as nossas criancinhas bem amadas” e ir “aos países irmãos do bloco socialista e aos países amigos do mundo inteiro para lhes agradecer por terem ajudado de todo o coração a luta patriótica do nosso povo contra a agressão americana”.

Separam-nos exatos 42 anos da sua morte. Mas, como vive! No Vietnã, sobretudo, mas também no mundo, estão presentes a imagem, a lembrança e os ensinamentos daquela figura maiúscula, cuja dimensão histórica contrastava tanto com o corpo magérrimo, uma espécie de asceta da revolução que ocupava apenas dois quartos modestamente mobiliados do palácio presidencial de Hanói, vestindo a mesma sandália e a túnica gasta, dormindo em cama sem colchão.

Guerrilheiro, intelectual e poeta, carinhosamente chamado de Tio Ho pelas crianças e jovens do Vietnã, Ho Chi Minh marcou o século XX e ganhou a admiração e o respeito do mundo com sua figura proeminente de revolucionário que se pôs à frente de seu povo para derrotar dois poderosos agressores, primeiro os franceses, depois os norte-americanos.

Da cabana de palha ao mundo

Ao nascer, em maio de 1890, numa cabana de palha de Kiem Lan, pequena aldeia da província de Nghè An, no Vietnã Central, recebeu o nome de Nguyeb Sinh Cung. Ao longo de sua longa vida de revolucionário, no entanto, usaria mais de dez nomes, entre os quais Nguyen Tat Thanh, Nguyen Ai Quoc e Ly Thui. Por fim, cunhou o pseudônimo definitivo de Ho Chi Minh, que significa “aquele que ilumina”.

Ainda muito jovem, tornou-se professor de escola média. Mas logo ganhava o mundo como aprendiz de cozinheiro num navio francês, conhecendo vários países, inclusive o Brasil, Estados Unidos e Inglaterra. Em 1917, fixou-se em Paris, onde foi jardineiro, lavador de pratos, cozinheiro. À noite, devorava Tolstoi, Shakespeare, Victor Hugo, Anatole France, Émile Zola e Marx. Aprendeu (e falou fluentemente) francês, inglês, alemão, russo e chinês. E escreveu versos. Ali entrou em contato com anarquistas, socialistas e comunistas, tomou conhecimento da vitória do socialismo na Rússia e das posições de Lênin e tornou-se marxista-leninista e membro do Partido Comunista Francês.

Desde cedo Ho Chi Minh ocupou-se, particularmente, da questão da luta anticolonial e da autodeterminação dos povos, dentro de uma perspectiva de luta socialista. Este, aliás, foi o tema do seu informe durante o V Congresso da Internacional Comunista, realizado em Moscou em 1924, dias após a morte de Lênin. Nessa estada em Moscou, conheceu os dirigentes comunistas brasileiros Astrogildo Pereira e Rodolfo Coutinho, ali presentes para buscar o reconhecimento do Partido Comunista do Brasil junto a Terceira Internacional Comunista.

Em 1930, Ho Chi Minh fundou o Partido Comunista da Indochina, unificando, para tanto, os três grupos comunistas existentes no País. No texto Apelo por motivo da fundação do Partido Comunista da Indochina, escreveu:

“Operários, camponeses, soldados, jovens, estudantes! Camaradas compatriotas oprimidos e explorados! O Partido Comunista da Indochina formou-se. É o partido da classe operária. Sob a sua direção, o proletariado dirigirá a revolução no interesse de todos os oprimidos e explorados”.

Vitórias

Durante a Segunda Guerra Mundial, junto com seus companheiros mais próximos, Pahm Van Dong e Nguyen Giap, dirigiu a luta contra os japoneses. Em 1941, foi criada a Liga pela Independência do Vietnã (Viet Minh) e, refletindo as orientações do VII Congresso da Internacional Comunista, convocada uma Frente Nacional constituída de operários, camponeses, pequeno-burgueses e ainda da burguesia nacional e de latifundiários anticolonialistas.

Ho Chi Minh e os comunistas vietnamitas lutaram duro. O general Vo Nguyen Giap (o grande artífice da vitória militar de seu país contra os colonialistas franceses e norte-americanos, que há dias completou 100 anos) recorda-se daqueles tempos de combate aos japoneses nas selvas tropicais do Vietnã: “Esta vida de clandestinos acossados era extremamente dura. Para conservar uma boa saúde, condição primordial de um bom trabalho, o Tio Ho observava regras muito estritas. Levantava-se muito cedo. Todos os dias era ele, invariavelmente, quem nos acordava. Fazíamos, em conjunto, alguns movimentos de cultura física; depois começava o dia de trabalho. À noite, carecidos de petróleo para os candeeiros, nos reuníamos em volta de fogueira. As horas das refeições eram também escrupulosamente respeitadas, mas a alimentação era bem escassa”.

Ho Chi Minh dizia sempre: “É preciso primeiro conquistar o povo antes de abordar o problema da insurreição”. Assim, o revolucionário mantinha-se em estreito contato com sua gente. Lembra-se Giap que seu camarada de armas “ia freqüentemente visitar os velhos e ensinar a ler os mais jovens. Gostava muito de crianças. Com a sua veste anilada, à moda das minorias Tho, poderia ser tomado por um camponês da região. O povo chamava-lhe respeitosamente ong ke, qualificação reservada aos anciãos da aldeia.”

A vitória da União Soviética sobre a Alemanha e o enfraquecimento do Japão animaram os revolucionários vietnamitas a iniciarem a insurreição que levaria, em dois de setembro de 1945, à ocupação de Hanói e à proclamação da independência do Vietnã. Mas três semanas depois o Corpo Expedicionário francês, auxiliado e financiado pela Inglaterra, abriu fogo contra Saigon, no Sul. Tem início nova guerra de libertação nacional, que duraria nove anos e resultaria, afinal, na derrota completa dos colonialistas franceses na histórica batalha de Dien Bien Phu.

Norte e Sul

Em julho de 1954 os Acordos de Genebra restabeleceram a paz na Indochina, mas decidiram dividir o Vietnã em dois estados independentes: Vietnã do Norte (com Ho Chi Minh na Presidência) e Vietnã do Sul (com o imperador Bao Dai no poder). E marcaram eleições livres para reunificação do país em dois anos, com supervisão internacional do cessar-fogo.

Enquanto no Vietnã do Norte o socialismo era construído (com progressos espetaculares, sobretudo na industrialização, na produção agrícola e na erradicação do analfabetismo e várias epidemias), no Sul, agora sob o mando de Ngo Din Diem, mais e mais soldados norte-americanos ali desembarcavam e pipocavam sabotagens, provocações e incitações à divisão dos vietnamitas. Em setembro de 1960, surge a Frente Nacional de Libertação (FNL) que conta com a participação de nacionalistas e comunistas organizados à distância por Ho Chi Minh.

Como Diem não estava conseguindo impedir o avanço da FNL, o imperialismo norte-americano lhe deu um fim radical: a morte. Mas nada disso suavizou a perspectiva de derrota dos ocupantes do País. Ho Chi Minh garantia: “Quanto mais agressivos se mostrarem, mais agravarão o seu crime. A guerra poderá prolongar-se ainda por cinco, dez, vinte anos ou mais; Hanói e Haiphong e outras cidades e empresas podem ser destruídas, mas o povo vietnamita não se deixará intimidar. Nada há de mais importante que a independência e a liberdade. Após a vitória, o nosso povo retomará nas suas mãos a reconstrução do país e torná-lo-á maior e mais belo.” A vitória ainda demoraria alguns anos, vindo apenas em 30 de abril de 1975, quando as tropas revolucionárias tomaram Saigon, a capital do Vietnã do Sul, que logo em seguida se tornaria cidade de Ho Chi Minh.

Inspiração

Foram cerca de cem anos de ocupação do País. Primeiro os franceses, depois os japoneses, novamente os franceses e por último os norte-americanos. Na luta titânica contra o colonialismo e a agressão imperialista, o povo vietnamita vincou na história da Humanidade um exemplo comovente de patriotismo e luta pela libertação de seu País. Nas últimas décadas dessa trajetória heróica a presença e liderança de Ho Chi Minh foram fundamentais. Líder com a estatura da história, dele já disseram. Obstinado em ocupar-se inteiramente, incondicionalmente com o mundo e os homens, desviou-se das desimportâncias mundanas, das pequenezas de espírito, fundido com profunda radicalidade aos dilemas essenciais da existência humana. Trabalhou com persistência e simplicidade, sempre sensível ao nível de consciência e aos reclamos de sua gente.

Bom seria se as novas gerações (que estão se formando e carecem de inspirações modelares) prestassem mais atenção a figuras maiúsculas como a de Ho Chi Minh, não no sentido de cópia de personalidade ou de reprodução de circunstâncias históricas irrepetíveis, mas como absorção de certos traços morais basilares, do desprendimento, da sensibilidade que o conduziu à poesia, da profunda consciência de seu tempo e seus desafios, da capacidade de entregar-se conscientemente à epopéia libertadora do seu povo.

Luiz Manfredini é jornalista e escritor em Curitiba, integra o Conselho Editorial da revista Princípios, representa no Paraná a Fundação Maurício Grabois e é autor de As moças de Minas (1989/2008) e Memória de Neblina, a ser lançado este ano.

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