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“Há sempre alguém que diz não”

*Luiz Manfredini

Olá, camaradas!

Neste final de semana os comunistas lembraram figuras emblemáticas de sua longa jornada de lutas. Sábado, 15, foi Oscar Niemeyer, comunista histórico, gênio da arquitetura, brasileiro superlativo que completou um século de vida. No domingo, 16, saudade e respeito na lembrança de Pedro Pomar, intelectual de envergadura, um dos mais destacados, brilhantes e talentosos dirigentes do nosso Partido, um dos ícones da luta socialista no Brasil, assassinado, junto com o operário Ângelo Arroyo e o jovem economista João Batista Drumond, em 16 de dezembro de 1976, quando tropas militares invadiram a casa onde acabara de realizar-se uma reunião do Comitê Central.

O movimento socialista brasileiro acumulou vasta galeria de heróis entranhadamente dedicados à emancipação social e política do povo, à luta pelo socialismo em nossa Pátria. As circunstâncias de hoje destacam essas duas figuras magnas, superlativas: Oscar Niemeyer e Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drumond, tesouros da revolução brasileira.

O norte de Oscar

Necessário estender-me sobre Niemeyer nas fronteiras desse modesto artigo? Não. Ele está na mídia, que o cumulou com reportagens, perfis, artigos, declarações. Importa mais destacar alguns aspectos, ou algumas passagens que bem definem essa figura carismática que jamais se  vendeu e chega aos 100 anos reafirmando o ideal socialista que animou toda sua vida.

Certa vez, entrevistado num programa de TV, foi perguntado: – O senhor não acha que a arquitetura é muito elitista? Respondeu: – Claro, a arquitetura não é feita para o povo. Mas este não é um problema da arquitetura, é um problema da revolução.

Revolução, eis um norte enraizado no coração e na mente de Oscar Niemeyer. É dele essa autodefinição em verso:

“A arquitetura que faço não importa.
O que eu quero é a pobreza superada,
A vida mais feliz, a pátria mais amada”

Magistral no ofício – a arquitetura –  e sólido, inquebrantável no compromisso revolucionário, Niemeyer é um velho bolchevique, homem da escola leninista, está com a revolução sempre em mente, ainda que isso não o leve a qualquer estreiteza política ou a qualquer contestação das táticas defensivas de períodos como o que vivemos na atualidade.

Comentando os debates semanais que promove, semanalmente, em seu escritório, Niemeyer escreveu: “Mas o que eu quero ver e discutir é como a revolta dos pobres se multiplicou, da Revolução Francesa à de outubro de 1917 na Rússia, e daí, nos vaivens da história, até a vitória de Fidel em Cuba. E voltar a Marx e Engels, ler com mais atenção o Manifesto do Partido Comunista e, com mais esperança, acreditar que o mundo de solidariedade que eles ofereciam e a maioria dos nossos irmãos mais pobres deseja, será realidade”. Em outra carta, ao comentar a “luta milenar entre pobres e ricos”, o arquiteto afirma: “É certo que o caminho é longo, os obstáculos, enormes, a reação, poderosa. (…) É o capitalismo em crise, e a miséria grande demais para ser contida. É preciso a noite para o sol nascer”.

A  noite que levou Pomar.

No dia 16 de dezembro de 1976, em plena noite da ditadura, tropas policiais – militares cercaram e invadiram a casa, no bairro paulistano da Lapa, onde o Partido acabara de reunir seu Comitê Central. Na fuzilaria, tombaram, desarmados, Pedro Pomar e Ângelo Arroyo. Preso já fora da casa, João Batista Drumond morreu sob tortura. Outros foram presos, entre os quais Elza Monerat, Maria Trindade, Haroldo Lima, Aldo Arantes. Era o que ficou conhecido na história política brasileira como a “chacina da Lapa”. Num só golpe, naquele dia tenebroso, a ditadura assassinou três entre os mais importantes lideranças partidárias. João Amazonas só não entrou nessa conta por estar em viagem à Albânia.

Paraense de Óbidos, nascido em 1913, Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar cedo envolveu-se na intensa política dos anos 30, tendo como companheiro o conterrâneo João Amazonas. Na década seguinte já estava no Rio de Janeiro, envolvido com a formação da Comissão Nacional de Organização Provisória, que articulou a reestruturação do Partido após a furiosa repressão do Estado Novo. Já em São Paulo, em 1947 elegeu-se deputado federal pelo Partido Social progressista, o PSP de Adhemar de Barros, então coligado com o PCB. Recebeu a expressiva votação de 100 mil votos, simplesmente estrondosa para a época.

Membro do Comitê Central do Partido e de sua Comissão Executiva, foi secretário de Educação e Propaganda, encarregado de supervisionar os cerca de 25 jornais mantidos pelos comunistas em todo o país. Em 1950, concluído o mandato pelo PSP, e já estando o PCB proscrito, passou à clandestinidade. Em 1962, junto com João Amazonas, Maurício Grabois, Kalil Chade, Lincoln Oest, Carlos Danielli, Ângelo Arroyo e outros dirigentes, esteve à frente da conferência que reorganizou o Partido Comunista do Brasil, sob a sigla PCdoB. Em l6 dezembro de 1976, aos 63 anos de idade, foi fuzilado pela repressão do regime militar. Seu corpo apresentava cerca de 50 perfurações de bala.

Operário metalúrgico nascido 1928, em São Paulo,  Ângelo Arroyo ingressou no PCB em 1945. Foi ativista do movimento sindical paulista, tornando-se um dos líderes do Sindicato dos Metalúrgicos na década de 50. Era um dos comandantes da guerrilha.  Em fins de janeiro de 1974, conseguiu furar o cerco de quase 20 mil militares e reencontrar os companheiros do Partido em São Paulo. Morreu ao lado de Pedro Pomar, aos 48 anos, ambos desarmados, sob a fuzilaria da repressão.

João Baptista Franco Drummond, nasceu em 1942, em Varginha, Minas Gerais. Participou ativamente do movimento estudantil, formando-se economista pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1966. Compôs a direção nacional de Ação Popular Marxista-Leninista, integrando-se ao PCdoB a partir de 1972, junto com a maioria da sua organização. Em 1974 tornou-se membro do Comitê Central.Preso em 16 de dezembro de 1976, já fora da casa da Lapa, Drumond foi morto sob tortura. Mas, segundo a nota oficial do Exército, morreu atropelado por um carro próximo ao local da fuzilaria.

Há saudade e tristeza na homenagem que comumente prestamos aos nossos mártires. Mas há também um gesto de fundamentado orgulho: retirar do passado lições e emblemas que melhor certifiquem a natureza ímpar e íntegra dessa instituição chamada Partido Comunista. Essa memória alimenta nossa consciência, a robustece frente aos desafios da atualidade, de modo a seguirmos sempre em frente, renovando-nos sem perder o rumo.

Ao comentar, certa feita, a idéia de revolução que jamais o abandona, Niemeyer citou o poema “Trova do vento que passa”, do poeta e líder socialista português Manual Alegre, que termina assim:

“Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste,
Há sempre alguém que diz não.”

Um abraço a todos. E até segunda.

ManfrediniLuiz Manfredini, jornalista, escritor, colunista do portal Vermelho, membro do Secretariado e da Comissão Política do Comitê Estadual do PCdoB do Paraná, integra o Conselho Editorial da revista Princípios e da Editora Anita Garibaldi e o Conselho Nacional do Instituto Maurício Grabois (IMG).

luiz-manfredini@uol.com.br

Uma resposta

  1. Em janeiro de 2006, ano em que se completaram 30 anos da chacina que levou a vida dos camaradas Pomar, Arroyo e Drummond, tive a oportunidade de estar em um curso partidário precisamente na Lapa, a poucas quadras da casa onde a ditadura perpetrou aquele assassinato.
    Todos os alunos do curso tiraram uma manhã para conhecerem o local da antiga casa da “Chacina da Lapa”. Hoje ali funciona uma Clínica de Urologia, cujos funcionários, surpresos ante a chegada daquelas dezenas de militantes portando uma bandeira vermelha, não sabiam o que fazer. Mas estávamos ali só pra render homenagem aos camaradas mortos, um momento de inesquecível emoção, todos perfilados diante do histórico local, segurando contritos uma bandeira do PC do B e uma do Brasil.
    Finda nossa homenagem, levantamos o olhar para cima, para a vida, para o futuro e gritamos com muita força vivas ao Partido Comunista do Brasil.

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